ARTIGOS
 
   
20/11/2008
Dom Pedro José Conti
Categoria: Papa Bento XVI

Três mil anos depois

Dom Pedro José Conti
 


“Um homem que tinha muitas palavras para dizer, mas não sabia como expressá-las, passou a sua vida de maneira obscura e escondida. Outro homem, que não tinha nada para dizer, mas que sabia falar muito bem teve notoriedade e sucesso na vida. Muitos anos se passaram após a morte de ambos. Do homem que não tinha nada para dizer ficou a lembrança, um grande túmulo e um epitáfio cheio de palavras tocantes. Do homem que tinha muitas coisas para dizer ficou só uma semente no coração de seus filhos, que a transmitiram de geração em geração. Hoje se celebram os três mil anos da morte dos dois homens. Daquele que não tinha nada para dizer não ficou absolutamente nada. Do homem que tinha muitas coisas para dizer ficaram todas as palavras outrora não ditas: a cada geração elas foram recompostas a partir daquela pequena semente caída no coração dos filhos”.

Vivemos numa época com excesso de palavras e poucos exemplos sinceros. Vale a pena meditar sobre essa pequena história, para não nos deixar enganar, ou encantar, pelas conversas mirabolantes que escutamos.

Levados pelas palavras e a propaganda esquecemos a realidade. Fascinados pelas aparências, não buscamos mais a substância. Satisfazemo-nos com o exterior, com a imagem nossa e dos outros. Dizer apenas que somos bons ou temos fé, não significa que realizemos gestos de bondade e vivamos, conscientemente, o que afirmamos acreditar.

No último domingo do ano litúrgico, somos convidados a pensar em Jesus Cristo como um Rei, mas de um jeito totalmente diferente dos grandes e dos famosos deste mundo. Jesus foi um “rei” que viveu humildemente, escondido, na periferia do mundo daquele tempo e acabou, inclusive, condenado à morte como um malfeitor. Tinha tudo para não dar certo. Tinha tudo para ser abandonado e esquecido. Aconteceu o contrário. O seu exemplo ficou no coração e na vida dos que o conheceram e estes, por sua vez, transmitiram a outros e mais outros, aquelas palavras, aquele jeito de viver e de morrer.


Ainda hoje buscamos a fama e o sucesso nos discursos e nas promessas bonitas. Tudo passará com as nossas vozes, por mais amplificadas que sejam pelos recursos da mídia. Porém se plantamos uma sementinha de bem e de amor, de paz e de bondade, no coração das pessoas, elas mesmas se encarregarão de levar adiante as únicas novidades que podem transformar a vida das pessoas: a compaixão e a misericórdia. Quem ficou tocado pelo mal e o sofrimento não esquece, mas também quem encontrou solidariedade e carinho guarda a lembrança daqueles momentos de alegria e de paz.

Estamos preocupados demais para que os outros saibam o que fazemos e o que dizemos. Também se temos muito pouco, ou quase nada, para dizer, e menos ainda se realizamos que não seja para o nosso exclusivo bem estar e interesse.

Seria melhor badalar menos e agir mais, praticando o bem. Pouco importa se os outros vão ficar sabendo ou não. Um dia o Deus de bondade nos ajudará a lembrar o bem escondido que fizemos. Seremos julgados sobre gestos concretos de bondade, gestos simples, cotidianos, pequenos. Gestos que não foram divulgados, que até nós esquecemos. O mesmo acontecerá, porém, pelas vezes que nos recusamos a fazer o bem.

É esta a força que continua a salvar o mundo do desastre e da tragédia, da violência e da escravidão do dinheiro. A bondade demora tanto para mudar o mundo porque são poucos os que confiam nela. Porque continua a ser uma semente escondida no coração das pessoas. Cabe a cada um cultivá-la, protegê-la, transmiti-la. Nós cristãos não podemos desistir nunca. Vamos continuar a plantar sementes de bondade, até sem saber onde irão cair. Nenhum gesto de amor será em vão. Continuará para sempre a produzir outros frutos.



Fonte: Igreja





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