27/09/2008
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Categoria: Diocese de Joinville
A palavra é um dom. Sendo dom, a palavra tem como propriedade a força criativa. O único uso devido da palavra é para criar, reconciliar, clarear, configurar e abrir horizontes novos de compreensão. “E Deus disse: faça-se a luz. E a luz se fez” (Gn 1,3). “E o verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A grandeza criadora e redentora de Deus se revela na força da palavra. A palavra de Deus não é uma simples emissão de sons de sílabas, de expressões. Deus se revela, na incomensurável grandeza do seu amor, pela palavra. A Palavra de Deus, que é Jesus Cristo Salvador e Redentor, assume a condição humana, fazendo-se em tudo semelhante aos homens, exceto no pecado, obediente até a morte, e morte de cruz. E Deus o exaltou, com a vitória da ressurreição. Por isso toda língua deve confessar que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus, seu pai.
O verbo encarnado é o diálogo amoroso perfeito de Deus criador, salvador e redentor com toda a humanidade. A palavra é, pois, um dom. Um dom que é uma fonte.
Na compleição própria da palavra como dom está, também, a sua dimensão paraclética. Isto é, uma propriedade da palavra que proferida recompõe corações, devolve a esperança, consola e gera entendimentos que produzem os funcionamentos que podem garantir a justiça e a paz. É incontestável a responsabilidade de usar a palavra. Não é só ter o dom da palavra. Ter o dom da palavra é um carisma cuja especialidade faz do instrumento um meio adequado para compartilhar a riqueza inesgotável da palavra.
O mais importante é a consciência de se usar a palavra como dom. Este uso da palavra, em todas as circunstâncias, requer nobreza e especialidade. Uma especialidade que supõe muito mais do que simplesmente fazer uso da palavra. O uso banalizado da palavra tem esvaziado a configuração própria de dom que só a palavra tem. Uma banalização tal que permite estudiosos a confeccionar um tratado geral sobre a fofoca. A fofoca nasce da incompetência de uso devido da palavra como dom. É habitual e cultural falar-se de tudo e sobre todas as coisas, até mesmo daquilo que não é da própria conta. Mais grave ainda é a realidade que a fala configura não se conseguindo manter respeito ao sigilo indispensável, fermentado pela curiosidade e pelo gosto mórbido de se contar tudo, desmerecendo confiança depositada e confundindo papéis e responsabilidades.
O uso indevido e inadvertido da palavra faz distante o tempo em que a palavra dada valia. A honra pessoal e a palavra dada eram inseparáveis. Uma verdadeira babel se instala aqui e acolá em razão da incompetência no uso da palavra. O que se diz de um jeito se diz de outro, sem firmeza e sem coragem de comprometimentos. É habitual saber de discursos que torcem a realidade comprometendo sentidos e a verdade. Compromete também o uso da palavra como dom, nos discursos oficiais, nos serviços prestados por discursos e nos diálogos, a obtusidade intelectual lamentável das inteligências. Nesta obtusidade o mais grave é a falta de bom senso e daquela sensibilidade que nunca foi propriedade exclusiva dos intelectuais e dos acadêmicos. Trata-se de uma propriedade dos sábios formados todos na escola que compreende a palavra como dom, superando seu uso indevido e permeando-a daquela meditação e contemplação que são fonte de sabedoria.
Quando a Igreja Católica investe na promoção de um mês da Bíblia, setembro como é a tradição iniciada na Arquidiocese de Belo Horizonte décadas atrás, tem como meta o despertar da consciência acerca da importância da Palavra de Deus. Uma importância que requer dar a ela uma centralidade cotidiana que não pode sofrer relativizações. Esta centralidade na escuta e meditação da Palavra de Deus não se trata simplesmente de um momento devocional. Alimenta a fé e a devoção, e tem força para recompor o sentido da linguagem que sustenta relações interpessoais e configura compreensões indispensáveis para a vida de cada dia, nas mais diversificadas circunstâncias e necessidades. A Palavra de Deus na palavra dom de todas as conversas e discursos, reflexões e discernimentos oferta propriedades que abrem perspectivas novas de compreensão, correções e ajustes nas dinâmicas da cultura, e alenta o sentido indispensável do viver.
A palavra como dom está posta na pauta do caminho missionário da Igreja. Não simplesmente em função de si mesma. É a “Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, a temática escolhida pelo Papa Bento XVI, ao convocar a XII Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, em Roma, de 5 a 26 de outubro de 2008. Esta aposta é a decisão de atingir a meta de fazer da Igreja uma Igreja da Palavra, dela se alimentando e alimentando o horizonte de compreensão da humanidade. Nesta aposta está a certeza de que a Palavra de Deus como fonte é a referência para que a Igreja possa rejuvenescer e ter uma nova primavera, uma nova primavera para a humanidade.
Fonte: Igreja